quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Coisas que a gente se esquece de dizer



Olha lá o moleque descendo a ladeira! Vai descendo o morro, assim como o rio desce rumo ao mar. Mar que ele nunca sequer sonhou. Água só da lagoa, do rio, da represa e das chuvas de janeiro.

Te segura, menino! Ele passa rasgando, parece em fuga, nem olha para os lados. Qualquer dia estabaca a boca no paralelepípedo. Qualquer dia.

Ele não está em fuga, ele corre ao encontro. São quase cinco e já da pra ouvir o trem de longe. Para onde ele vai? Será que entra por algum buraco na mata? Impossível haver tanto trilho Minas a dentro! Qual é o tamanho de Minas? Deve ser muito grande. Grande mesmo.

Olha lá o trem indo! Vai correndo os trilhos, assim como o rio corre rumo ao mar. E tem muitos vagões. Mais do que os números que o moleque aprendeu a contar.

Quem já se acostumou ao aroma doce, sente bem o cheiro de sal que sai do atrito das rodas com o trilho. Deve ser do suor, conclui o pequeno. 
Capa do disco "Clube da Esquina", lançado em 1972.
Título do texto é a primeira estrofe da música "Trem azul", de Lô Borges, que faz parte do albúm.

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