Olha lá o moleque descendo a ladeira! Vai descendo o morro,
assim como o rio desce rumo ao mar. Mar que ele nunca sequer sonhou. Água só da
lagoa, do rio, da represa e das chuvas de janeiro.
Te segura, menino! Ele passa rasgando, parece em fuga, nem
olha para os lados. Qualquer dia estabaca a boca no paralelepípedo. Qualquer
dia.
Ele não está em fuga, ele corre ao encontro. São quase cinco
e já da pra ouvir o trem de longe. Para onde ele vai? Será que
entra por algum buraco na mata? Impossível haver tanto trilho Minas a dentro!
Qual é o tamanho de Minas? Deve ser muito grande. Grande mesmo.
Olha lá o trem indo! Vai correndo os trilhos, assim como o
rio corre rumo ao mar. E tem muitos vagões. Mais do que os números que o
moleque aprendeu a contar.
Quem já se acostumou ao aroma doce, sente bem o cheiro de
sal que sai do atrito das rodas com o trilho. Deve ser do suor, conclui o pequeno.
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| Capa do disco "Clube da Esquina", lançado em 1972. Título do texto é a primeira estrofe da música "Trem azul", de Lô Borges, que faz parte do albúm. |

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