domingo, 11 de agosto de 2013

Quando nos falamos

O all star furado dele estava com a sola tão gasta que ele sentia cada pequena curva dos paralelepípedos da praça Fernando Prestes. De repente começa a chover. Que estranho, nunca chove em agosto...

Ora, quem carrega guarda-chuva na bolsa em pleno mês seco? Ele era o único paulistano sem guarda-chuva na rua da Graça. E como molhavam aqueles pingos tímidos! Os cabelos, já molhados, não seguravam o aguaceiro que escorria pelo rosto. Parecia suor. Parecia choro. Ele apressava o passo, mas perdia velocidade desviando dos guarda-chuvas dos prevenidos.

Ele estava na fase da negação. Não admitia aquela chuva intrusa. O coração acelerava. Como entraria no trem todo molhado? Faltava pouco para as sete. Estava atrasado. A mente devia estar ali e estava, mas o coração, ah, o coração estava em outro lugar.

Na rua Três Rios ele parou no farol e custou a atravessar. Demorou tanto que aceitou. Habituou-se a tanta água.

A vida era um filme.

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