Nunca imaginei que eu fosse tão longe. Saí de São Paulo e fui até Salvador de carro e depois voltei, também de carro. Viagens de carro são sempre cansativas, ainda mais pra mim que tenho quase 1,90 de altura. Não é fácil passar horas sem poder esticar as pernas. Mas ao menos essas viagens nos presenteiam com surpresas interessantes nas paradas.
Em uma das pausas conhecemos Jequié, um simpático município do sudoeste baiano. Depois de almoçar, minha equipe foi fazer umas fotos perto da igreja central da cidade e lá, entre cliques e "boa tardes" - uma das coisas que mais fiz nessa viagem foi distribuir saudações, as pessoas respondiam, olhavam no olho - paramos pra conversar com Consuelo, uma simpática senhora de uns 60 e poucos anos. Revendia Avon e estava cobrando o pagamento por uns produtos que o rapaz das fotografias havia comprado.
Nos apresentamos, falamos que íamos pra Salvador gravar um documentário e sem titubear, dona Consuelo pediu pra que eu fizesse uma foto dela. Achei o pedido engraçado, mas fiz a foto. Rapidamente ele se posicionou e arrastou o fotógrafo da praça e um outro rapaz que estava perto. Eles estavam tímidos, não sabiam fazer pose. Lembrei da infância, quando minha mãe tirava fotos minhas e eu sempre ficava retinho, com os braços esticados. Mais um pouco, bateria continência.
Sem que percebesse fiz fotos dela, apenas. E mais uma vez, sem pensar muito, como se fosse a única oportunidade, Consuelo lança outro pedido. Queria que o Luciano Huck fosse reformar a casa dela!
Uma sensação estranha tomou conta de mim. Uma mistura de dó e desconforto. Primeiro porque eu estava com uma câmera tão cara e chamativa nas mãos, tirando fotos no mesmo local onde um cidadão ganhava a vida fazendo fotografias, ainda no modo analógico. E depois, porque eu não poderia levar o pedido de dona Consuelo até o Luciano Huck.
E como se não bastasse toda aquela tortura interna, a revendedora da Avon me lança mais uma: Você me manda essa foto? Me passou o nome completo e o endereço.
Ainda não mandei a primeira carta da minha vida. Em breve mandarei.
E quando pensei que novos momentos desconfortantes não aconteceriam, sou pego de surpresa, já no trecho final da viagem, na cidade do Rio de Janeiro. Eu tinha acordado cedo naquele dia. E estava lá, sentando em um dos
degraus de um monumento, esperando a passagem do Papa Francisco e sondando
alguém pra pegar alguma sonora.
Um senhor estava putíssimo com o tal monumento que a prefeitura do Rio colocou na rotatória da avenida Pedro 2º, em São Cristovão, na zona norte da cidade. Ele estava tão revoltado que lançava muitos perdigotos. No microfone, em mim, no meu olho. Sim, foi horrível.
Segundo ele, o presente dado pelo então presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, deveria ser instalado em algum bairro nobre, que não me recordo agora, mas "foi escondido em São Cristovão, por ser muito feio". No seu longo e molhado discurso, ele falou também sobre a estupidez dos governantes do Rio por terem escolhido Guaratiba para a realização da missa de envio da Jornada Mundial da Juventude.
Aquilo renderia uma pauta. Uma reportagem para o RJTV, quem sabe. Ou talvez não rendesse nada. E mesmo assim, mais uma vez eu me senti incapaz. O máximo que eu poderia fazer, era colocar aquela sonora no You Tube. Coisa que aquele senhor mesmo poderia fazer.
Foi aí que vi que eu não tinha chegado longe demais. Ainda falta, e muito, pra eu chegar lá nesse tal de longe. Estou a caminho!