quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Coisas que a gente se esquece de dizer



Olha lá o moleque descendo a ladeira! Vai descendo o morro, assim como o rio desce rumo ao mar. Mar que ele nunca sequer sonhou. Água só da lagoa, do rio, da represa e das chuvas de janeiro.

Te segura, menino! Ele passa rasgando, parece em fuga, nem olha para os lados. Qualquer dia estabaca a boca no paralelepípedo. Qualquer dia.

Ele não está em fuga, ele corre ao encontro. São quase cinco e já da pra ouvir o trem de longe. Para onde ele vai? Será que entra por algum buraco na mata? Impossível haver tanto trilho Minas a dentro! Qual é o tamanho de Minas? Deve ser muito grande. Grande mesmo.

Olha lá o trem indo! Vai correndo os trilhos, assim como o rio corre rumo ao mar. E tem muitos vagões. Mais do que os números que o moleque aprendeu a contar.

Quem já se acostumou ao aroma doce, sente bem o cheiro de sal que sai do atrito das rodas com o trilho. Deve ser do suor, conclui o pequeno. 
Capa do disco "Clube da Esquina", lançado em 1972.
Título do texto é a primeira estrofe da música "Trem azul", de Lô Borges, que faz parte do albúm.

domingo, 11 de agosto de 2013

Quando nos falamos

O all star furado dele estava com a sola tão gasta que ele sentia cada pequena curva dos paralelepípedos da praça Fernando Prestes. De repente começa a chover. Que estranho, nunca chove em agosto...

Ora, quem carrega guarda-chuva na bolsa em pleno mês seco? Ele era o único paulistano sem guarda-chuva na rua da Graça. E como molhavam aqueles pingos tímidos! Os cabelos, já molhados, não seguravam o aguaceiro que escorria pelo rosto. Parecia suor. Parecia choro. Ele apressava o passo, mas perdia velocidade desviando dos guarda-chuvas dos prevenidos.

Ele estava na fase da negação. Não admitia aquela chuva intrusa. O coração acelerava. Como entraria no trem todo molhado? Faltava pouco para as sete. Estava atrasado. A mente devia estar ali e estava, mas o coração, ah, o coração estava em outro lugar.

Na rua Três Rios ele parou no farol e custou a atravessar. Demorou tanto que aceitou. Habituou-se a tanta água.

A vida era um filme.

sábado, 3 de agosto de 2013

Longe

Nunca imaginei que eu fosse tão longe. Saí de São Paulo e fui até Salvador de carro e depois voltei, também de carro. Viagens de carro são sempre cansativas, ainda mais pra mim que tenho quase 1,90 de altura. Não é fácil passar horas sem poder esticar as pernas. Mas ao menos essas viagens nos presenteiam com surpresas interessantes nas paradas.

Em uma das pausas conhecemos Jequié, um simpático município do sudoeste baiano. Depois de almoçar, minha equipe foi fazer umas fotos perto da igreja central da cidade e lá, entre cliques e "boa tardes" - uma das coisas que mais fiz nessa viagem foi distribuir saudações, as pessoas respondiam, olhavam no olho - paramos pra conversar com Consuelo, uma simpática senhora de uns 60 e poucos anos. Revendia Avon e estava cobrando o pagamento por uns produtos que o rapaz das fotografias havia comprado.

Nos apresentamos, falamos que íamos pra Salvador gravar um documentário e sem titubear, dona Consuelo pediu pra que eu fizesse uma foto dela. Achei o pedido engraçado, mas fiz a foto. Rapidamente ele se posicionou e arrastou o fotógrafo da praça e um outro rapaz que estava perto. Eles estavam tímidos, não sabiam fazer pose. Lembrei da infância, quando minha mãe tirava fotos minhas e eu sempre ficava retinho, com os braços esticados. Mais um pouco, bateria continência.

Sem que percebesse fiz fotos dela, apenas. E mais uma vez, sem pensar muito, como se fosse a única oportunidade, Consuelo lança outro pedido. Queria que o Luciano Huck fosse reformar a casa dela!

Uma sensação estranha tomou conta de mim. Uma mistura de dó e desconforto. Primeiro porque eu estava com uma câmera tão cara e chamativa nas mãos, tirando fotos no mesmo local onde um cidadão ganhava a vida fazendo fotografias, ainda no modo analógico. E depois, porque eu não poderia levar o pedido de dona Consuelo até o Luciano Huck.

E como se não bastasse toda aquela tortura interna, a revendedora da Avon me lança mais uma: Você me manda essa foto? Me passou o nome completo e o endereço.

Ainda não mandei a primeira carta da minha vida. Em breve mandarei.

E quando pensei que novos momentos desconfortantes não aconteceriam, sou pego de surpresa, já no trecho final da viagem, na cidade do Rio de Janeiro. Eu tinha acordado cedo naquele dia. E estava lá, sentando em um dos degraus de um monumento, esperando a passagem do Papa Francisco e sondando alguém pra pegar alguma sonora.

Um senhor estava putíssimo com o tal monumento que a prefeitura do Rio colocou na rotatória da avenida Pedro 2º, em São Cristovão, na zona norte da cidade. Ele estava tão revoltado que lançava muitos perdigotos. No microfone, em mim, no meu olho. Sim, foi horrível.

Segundo ele, o presente dado pelo então presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, deveria ser instalado em algum bairro nobre, que não me recordo agora, mas "foi escondido em São Cristovão, por ser muito feio". No seu longo e molhado discurso, ele falou também sobre a estupidez dos governantes do Rio por terem escolhido Guaratiba para a realização da missa de envio da Jornada Mundial da Juventude.

Aquilo renderia uma pauta. Uma reportagem para o RJTV, quem sabe. Ou talvez não rendesse nada. E mesmo assim, mais uma vez eu me senti incapaz. O máximo que eu poderia fazer, era colocar aquela sonora no You Tube. Coisa que aquele senhor mesmo poderia fazer.

Foi aí que vi que eu não tinha chegado longe demais. Ainda falta, e muito, pra eu chegar lá nesse tal de longe. Estou a caminho!