"Porra, mas ninguém sabe andar nessa cidade?" é o que pensa Augusto quando pedem informações pra ele. Mesmo não dizendo, ele deixa claro que está puto. Faz uma cara feia e fala com a boca quase fechada. Se o pobre ouvinte diz "o quê?" pronto, Augusto vira uma fera!
José Augusto Monteiro é um jornaleiro de sessenta e quatro anos que trabalha há pelos menos trinta numa banca na Barra Funda. É daqueles que gostava da ditadura e que não acredita em sorte, segue uma religião por medo e acredita em tudo o que sai no jornal.
Augusto cresceu junto com a Barra Funda, viu tudo se transformar.
As pessoas não compram mais jornal, nem revista de mulher pelada. Há tempos que as vendas estão ruins. Quando alguém se aproxima da banca, das duas, uma: ou vai comprar chiclete ou pedir informação.
Na verdade Augusto está cansado. Ele tem é vontade de chorar.
Mas nem tudo está perdido. Augusto leu no jornal - naquele qualquer, aquele que ninguém compra - que estudar um idioma vai ser um bom negócio com todo esse papo de Copa do Mundo no ano que vem.
O velho pegou as revistinhas de idiomas da banca e começou a estudar, virou bilíngue. Em 2014, Augusto vai resmungar em inglês.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Obrigado
Quero agradecer pela vida das flores! Das mais perfumadas as mais bonitas. Meu agradecimento vai também para as flores de apartamento e para aquelas que estão lá no meio da mata, tomando chuva, aquelas que têm gotinhas de orvalho pela manhã.
Agradeço pela vida das flores que são presenteadas. Mesmo estando mortas, elas ainda têm uma aura que só se encontra nelas. Essas flores perdoam, pedem em casamento, sepultam.
Tem até flor que canta! E a essa eu agradeço muito.
Gostaria de agradecer pela vida, talvez não tão boa, das flores que nascem no lixão. Flores que têm seu perfume encoberto pelo odor dos meus detritos.
Obrigado por também despetalarem-se.
Agradeço pela vida das flores que são presenteadas. Mesmo estando mortas, elas ainda têm uma aura que só se encontra nelas. Essas flores perdoam, pedem em casamento, sepultam.
Tem até flor que canta! E a essa eu agradeço muito.
Gostaria de agradecer pela vida, talvez não tão boa, das flores que nascem no lixão. Flores que têm seu perfume encoberto pelo odor dos meus detritos.
Obrigado por também despetalarem-se.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Como ser um jovem de 2013
ATENÇÃO: Este post tem o intuito de entreter, fazer com que a gente possa dar risada de nós mesmos, dos nossos modismos, hábitos etc. Eu também faço muitas dessas coisas. Amo meus amigos que estão descritos aqui. Lembrem-se que o blog se chama "Cotidiano Reflexivo" e que fique claro que a Fanie Brunhoroto enumerou algumas caracterísiticas que eu não havia me lembrado.
Discorde
de tudo. Mesmo que você concorde.
Fale mal
das crocs, mas use em casa, escondido de tudo e de todos.
Use sneaker.
Mesmo existindo tênis convencionais e sapatos de salto alto. As pessoas gostam
de mistura de coisas. Dois em um.
Use
alargador. Choque a sociedade usando um de 40 cm ou use um de 0,0000001 cm
só pra dizer que usa alargador.
Por falar
em sociedade, use sempre, em qualquer conversa mais cabeça, o termo sociedade. Culpe
a sociedade e acredite que a sociedade são sempre os outros.
Critique o
futebol e quem gosta de futebol.
Se gostar
de futebol, torça por um time bem desconhecido, como o Operário do Mato Grosso
do Sul, por exemplo.
Se
criticar o futebol, use sempre o termo “alienados”.
Se juntar “sociedade”
+ “alienação”, pronto, perfeito! Diga sempre, a todo o momento, aos quatro
ventos: A SOCIEDADE É ALIENADA!
Assista ao
documentário “Além do Cidadão Kane” e revolte-se com a Globo e diga nas redes
sociais que a sociedade é manipulada pela mídia.
Mas
assista ao programa do Jô Soares. Tem “cultura”.
Pareça ser
gay, mas pegue geral.
40% das mulheres
não saber usar blush.
A cada 10
mulheres, 9 estão usando aquelas sapatilhas. E dessas 9, ao menos 5 tem aquele bandeide
no calcanhar. Se são tão desconfortáveis, porque usam?
40% dos
homens usam aquele corte de cabelo em que se raspa tudo e fica um pouco de
cabelo (com um grande e estiloso topete) na parte de cima do coco. 35% usam
cortes convencionais por causa do emprego ou por falta de coragem. Os 25%
restantes são funkeiros. A variação dos cortes baseia-se numa escala que vai de
luzes ao ridículo extremo, passando pelo corte atual do Neymar. (Que
independentemente do tempo será sempre ridículo.)
Barba! Ah,
as barbas... Tenha uma! Cheia, ralinha, aparada, por fazer, não importa. O
importante é ter.
Tenha uma
aliança de prata na mão direita. Não importa se você namora há anos ou achou no
pacote de balas. Dá pra formar casais aleatóriamente, em qualquer lugar se
levar em conta a aliança.
Vá a
festas e tire uma foto segurando um copo plástico. Nem precisa ter bebida alcoólica
dentro. Se for daqueles que tem em festas de filmes americanos, melhor! E
claro, poste a foto no "feice". Se for pelo instagram, maravilha!
Coloque um
piercing em qualquer parte do corpo. Quanto mais exótico, melhor.
Meninas:
Tatuem a coxa ou a batata da perna.
Meninos:
Tatuem carpas.
Poste
fotos de comida, de pets e de cidades no Instagram.
No
Facebook poste frases de autoajuda e da Clarice Lispector (mesmo que não sejam
dela)
No Twitter
jogue indiretas ou pense em qualquer coisa que caiba em 140 caracteres e renda
um RT.
Use óculos
de grau. Mesmo que você não precise. Se for retrô, então, melhor ainda.
Se for de
sol, que seja um Ray Ban new age preto.
As pessoas
amam bacon. Mesmo sendo só bacon. Ame-o
Meninas:
choquem a sociedade e raspem um dos lados da cabeça. Sidecut é o nome disso.
Use dread.
Mesmo que seja um só.
Insinue
que você usa maconha.
Acompanhe alguma série de TV.
Use xadrez. Qualquer peça de roupa.
Floral também. Tanto homem quanto mulher.
Acompanhe alguma série de TV.
Use xadrez. Qualquer peça de roupa.
Floral também. Tanto homem quanto mulher.
Meninas:
pintem a unha do dedo anelar com uma cor diferente de todas as outras. É a tal
da filha única.
50% das
pessoas leem “50 Tons de Cinza”. 20% leem “A Grande Esperança”. Outros 20% leem
os livros da faculdade. Os outros 10% são os homens que leem “50 Tons de Cinza”
escondidos.
Ou o
celular é Samsung ou é iPhone.
Claro,
coloque no seu celular uma case. Das mais sutis às mais bizarras, como aquelas
com quase o triplo do tamanho do seu (nada singelo) telefone celular.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Atraso na hora certa
Já parou pra pensar como é maluco é utilizar o transporte público
e encontrar as mesmas pessoas diariamente, e nem ao menos saber o nome delas? Dá
pra acompanhar as mudanças de cabelo, os dias em que a pessoa está mais bonita,
mais triste e dá pra notar, principalmente, quando essa pessoa não está. Aqui
em São Paulo tem muito disso. Aqui, nessa cidade enorme todos estão sempre
atrasados e atrasados juntos, atrasados no mesmo horário.
Todo dia tem uma garota que entra na estação Faria Lima, e
eu, que enfrentei os milhares de degraus da estação Pinheiros, já estou no
metrô. Ela é linda. Tem cabelos castanhos, é alta, um rosto limpo, sem essas
bobagens de maquiagem. Tem um piercing de argola no nariz. Uma franja lisa que
insiste em cair no rosto com os solavancos do metrô e o resto do cabelo é todo
ondulado, na altura dos ombros. Apesar da altura e da postura séria, não deve
ter dezoito anos ainda.
A distância da Faria Lima até a Paulista que às vezes dura uma
eternidade, passa rápido e aí vem a tensão. A voz anuncia: Estação Paulista,
acesso à linha 2 – Verde do Metrô. Alguns se levantam, outros vão pra perto da
porta e eu fecho meu livro, respiro fundo. Ela vira em direção à porta. O metrô
para. Segundos de silêncio e tensão, a porta de vidro se abre, primeiro sinal
sonoro. A porta do metrô se abre, segundo sinal sonoro. Todos descem, a
plataforma é pequena demais, tem gente demais. E onde ela está? Já está lá em
cima, subiu quase todos os degraus da escada e foi embora, não sei se pra Linha
Verde ou pra Consolação.
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