quarta-feira, 15 de maio de 2013

Augusto da Barra Funda

"Porra, mas ninguém sabe andar nessa cidade?" é o que pensa Augusto quando pedem informações pra ele. Mesmo não dizendo, ele deixa claro que está puto. Faz uma cara feia e fala com a boca quase fechada. Se o pobre ouvinte diz "o quê?" pronto, Augusto vira uma fera!

José Augusto Monteiro é um jornaleiro de sessenta e quatro anos que trabalha há pelos menos trinta numa banca na Barra Funda. É daqueles que gostava da ditadura e que não acredita em sorte, segue uma religião por medo e acredita em tudo o que sai no jornal.

Augusto cresceu junto com a Barra Funda, viu tudo se transformar.

As pessoas não compram mais jornal, nem revista de mulher pelada. Há tempos que as vendas estão ruins. Quando alguém se aproxima da banca, das duas, uma: ou vai comprar chiclete ou pedir informação.

Na verdade Augusto está cansado. Ele tem é vontade de chorar.

Mas nem tudo está perdido. Augusto leu no jornal - naquele qualquer, aquele que ninguém compra - que estudar um idioma vai ser um bom negócio com todo esse papo de Copa do Mundo no ano que vem.

O velho pegou as revistinhas de idiomas da banca e começou a estudar, virou bilíngue. Em 2014, Augusto vai resmungar em inglês.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Obrigado

Quero agradecer pela vida das flores! Das mais perfumadas as mais bonitas. Meu agradecimento vai também para as flores de apartamento e para aquelas que estão lá no meio da mata, tomando chuva, aquelas que têm gotinhas de orvalho pela manhã.

Agradeço pela vida das flores que são presenteadas. Mesmo estando mortas, elas ainda têm uma aura que só se encontra nelas. Essas flores perdoam, pedem em casamento, sepultam.

Tem até flor que canta! E a essa eu agradeço muito.

Gostaria de agradecer pela vida, talvez não tão boa, das flores que nascem no lixão. Flores que têm seu perfume encoberto pelo odor dos meus detritos.

Obrigado por também despetalarem-se.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Como ser um jovem de 2013


ATENÇÃO: Este post tem o intuito de entreter, fazer com que a gente possa dar risada de nós mesmos, dos nossos modismos, hábitos etc. Eu também faço muitas dessas coisas. Amo meus amigos que estão descritos aqui. Lembrem-se que o blog se chama "Cotidiano Reflexivo" e que fique claro que a Fanie Brunhoroto enumerou algumas caracterísiticas que eu não havia me lembrado.


Discorde de tudo. Mesmo que você concorde.

Fale mal das crocs, mas use em casa, escondido de tudo e de todos.

Use sneaker. Mesmo existindo tênis convencionais e sapatos de salto alto. As pessoas gostam de mistura de coisas. Dois em um.

Use alargador. Choque a sociedade usando um de 40 cm ou use um de 0,0000001 cm só pra dizer que usa alargador.

Por falar em sociedade, use sempre, em qualquer conversa mais cabeça, o termo sociedade. Culpe a sociedade e acredite que a sociedade são sempre os outros.

Critique o futebol e quem gosta de futebol.

Se gostar de futebol, torça por um time bem desconhecido, como o Operário do Mato Grosso do Sul, por exemplo.

Se criticar o futebol, use sempre o termo “alienados”.

Se juntar “sociedade” + “alienação”, pronto, perfeito! Diga sempre, a todo o momento, aos quatro ventos: A SOCIEDADE É ALIENADA!

Assista ao documentário “Além do Cidadão Kane” e revolte-se com a Globo e diga nas redes sociais que a sociedade é manipulada pela mídia.

Mas assista ao programa do Jô Soares. Tem “cultura”.

Pareça ser gay, mas pegue geral.

40% das mulheres não saber usar blush.

A cada 10 mulheres, 9 estão usando aquelas sapatilhas. E dessas 9, ao menos 5 tem aquele bandeide no calcanhar. Se são tão desconfortáveis, porque usam?

40% dos homens usam aquele corte de cabelo em que se raspa tudo e fica um pouco de cabelo (com um grande e estiloso topete) na parte de cima do coco. 35% usam cortes convencionais por causa do emprego ou por falta de coragem. Os 25% restantes são funkeiros. A variação dos cortes baseia-se numa escala que vai de luzes ao ridículo extremo, passando pelo corte atual do Neymar. (Que independentemente do tempo será sempre ridículo.)

Barba! Ah, as barbas... Tenha uma! Cheia, ralinha, aparada, por fazer, não importa. O importante é ter.

Tenha uma aliança de prata na mão direita. Não importa se você namora há anos ou achou no pacote de balas. Dá pra formar casais aleatóriamente, em qualquer lugar se levar em conta a aliança.

Vá a festas e tire uma foto segurando um copo plástico. Nem precisa ter bebida alcoólica dentro. Se for daqueles que tem em festas de filmes americanos, melhor! E claro, poste a foto no "feice". Se for pelo instagram, maravilha!

Coloque um piercing em qualquer parte do corpo. Quanto mais exótico, melhor.

Meninas: Tatuem a coxa ou a batata da perna.

Meninos: Tatuem carpas.

Poste fotos de comida, de pets e de cidades no Instagram.

No Facebook poste frases de autoajuda e da Clarice Lispector (mesmo que não sejam dela)

No Twitter jogue indiretas ou pense em qualquer coisa que caiba em 140 caracteres e renda um RT.

Use óculos de grau. Mesmo que você não precise. Se for retrô, então, melhor ainda.

Se for de sol, que seja um Ray Ban new age preto.

As pessoas amam bacon. Mesmo sendo só bacon. Ame-o

Meninas: choquem a sociedade e raspem um dos lados da cabeça. Sidecut é o nome disso.

Use dread. Mesmo que seja um só.

Insinue que você usa maconha.

Acompanhe alguma série de TV. 

Use xadrez. Qualquer peça de roupa.

Floral também. Tanto homem quanto mulher.

Meninas: pintem a unha do dedo anelar com uma cor diferente de todas as outras. É a tal da filha única.

50% das pessoas leem “50 Tons de Cinza”. 20% leem “A Grande Esperança”. Outros 20% leem os livros da faculdade. Os outros 10% são os homens que leem “50 Tons de Cinza” escondidos.

Ou o celular é Samsung ou é iPhone.

Claro, coloque no seu celular uma case. Das mais sutis às mais bizarras, como aquelas com quase o triplo do tamanho do seu (nada singelo) telefone celular.

E por último, mas não menos importante: ter um tumblr ou blog furreca que ninguém lê! 

foto aleatória do meu pé e do pé da Fanie, em um dia qualquer, com a cidade ao fundo, sem significado algum, mas com filtro de Instagram.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Atraso na hora certa



Já parou pra pensar como é maluco é utilizar o transporte público e encontrar as mesmas pessoas diariamente, e nem ao menos saber o nome delas? Dá pra acompanhar as mudanças de cabelo, os dias em que a pessoa está mais bonita, mais triste e dá pra notar, principalmente, quando essa pessoa não está. Aqui em São Paulo tem muito disso. Aqui, nessa cidade enorme todos estão sempre atrasados e atrasados juntos, atrasados no mesmo horário. 

Todo dia tem uma garota que entra na estação Faria Lima, e eu, que enfrentei os milhares de degraus da estação Pinheiros, já estou no metrô. Ela é linda. Tem cabelos castanhos, é alta, um rosto limpo, sem essas bobagens de maquiagem. Tem um piercing de argola no nariz. Uma franja lisa que insiste em cair no rosto com os solavancos do metrô e o resto do cabelo é todo ondulado, na altura dos ombros. Apesar da altura e da postura séria, não deve ter dezoito anos ainda.

A distância da Faria Lima até a Paulista que às vezes dura uma eternidade, passa rápido e aí vem a tensão. A voz anuncia: Estação Paulista, acesso à linha 2 – Verde do Metrô. Alguns se levantam, outros vão pra perto da porta e eu fecho meu livro, respiro fundo. Ela vira em direção à porta. O metrô para. Segundos de silêncio e tensão, a porta de vidro se abre, primeiro sinal sonoro. A porta do metrô se abre, segundo sinal sonoro. Todos descem, a plataforma é pequena demais, tem gente demais. E onde ela está? Já está lá em cima, subiu quase todos os degraus da escada e foi embora, não sei se pra Linha Verde ou pra Consolação.
Mas não tem problema não... Se eu me atrasar de novo, amanhã, por volta das 06h35, ela vai entrar no metrô, lá na estação Faria Lima.
 
Passarela de transferência da Estação Pinheiros.